Descubra O Seu Número De Anjo
Para quem o viu percorrer Lisboa em «Parts Unknown» — aquelas horas numa tasca do Mouraria, a ginjinha na mão, o ar simultaneamente espantado e em casa —, Anthony Bourdain parecia um homem sem ataduras. Um nómada perfeito. Mas por trás da figura pública, irreverente e incansável, havia amores reais, casamentos desfeitos e laços que sobreviveram ao próprio fim do casamento. Quem foram as mulheres que partilharam a sua vida antes de tudo acabar naquele quarto de hotel em Estrasburgo, em junho de 2018?
Nancy Putkoski: o amor da adolescência
Há amores que começam quando ainda mal sabemos o que queremos da vida. O de Anthony Bourdain com Nancy Putkoski nasceu nos tempos da escola secundária, em Leonia, no estado de Nova Jérsia. Ela era a rapariga que ele achava inalcançável. Ele, o miúdo inteligente e irrequieto que não cabia bem em lado nenhum.
Casaram em 1985. Bourdain tinha 29 anos. O casamento durou duas décadas — vinte anos de vida partilhada, com os altos e baixos que se imaginam numa relação que atravessou os piores anos dele. Durante grande parte desse tempo, Bourdain lutou com dependências pesadas: heroína, cocaína, o ciclo destruitivo de uma vida nos bastidores de restaurantes de Nova Iorque que ele próprio descreveu com crueza brutal em «Kitchen Confidential».
Blake Lively Wikipédia
Nancy esteve lá. Foi testemunha de anos em que a saída mais provável era a morte prematura. Bourdain reconheceu-o várias vezes em entrevistas: ela soube da heroína e ficou na mesma. Isso diz tudo sobre o tipo de lealdade que existiu entre os dois.

O fim silencioso de um casamento longo
O divórcio chegou em 2005. Não houve escândalo, não houve declarações públicas dramáticas. Simplesmente... acabou. Muitos atribuíram a separação ao facto de Bourdain ter começado a viajar de forma intensa para a televisão — primeiro «A Cook's Tour» na Food Network, depois «No Reservations» na Travel Channel. A fama mudou-o. A ausência prolongada desgastou o que ainda restava.
Nancy Putkoski retirou-se completamente da vida pública. Até hoje não deu entrevistas, não aparece em redes sociais, não faz parte da narrativa mediática que envolve o nome de Bourdain. É uma das personagens mais enigmáticas desta história — presente nos anos mais sombrios, ausente nos de glória.
Há qualqer coisa de poético nisso. Ou de muito triste, consoante o ângulo de quem olha.
Ottavia Busia: o amor que virou amizade
Em 2007, Bourdain casou pela segunda vez. Ottavia Busia era italiana, nascida em Borgomanero, no Piemonte. Restauradora por profissão, mulher de carácter por natureza. Conheceram-se através de amigos comuns e a química foi imediata — pelo menos foi o que ele contou em entrevistas da época.
Nesse mesmo ano nasceu Ariane, a filha do casal. Bourdain ficou completamente rendido à paternidade. Fez disso um tema recorrente nas suas crónicas, nas entrevistas, nos momentos raros em que baixava a guarda habitual. Disse várias vezes que Ariane era a coisa mais importante da sua vida. Parecia genuíno quando o dizia — e provavelmente era.
O casamento formal durou até 2016. Separaram-se, mas algo pouco comum aconteceu: ficaram amigos. De verdade. Não o tipo de amizade performativa para as câmaras, mas uma relação de cuidado real, construída em torno da filha. Ottavia falou sempre bem de Bourdain nas entrevistas que foi dando. Ele, idem.

A co-parentalidade que, surpreendentemente, funcionou
Ottavia continuou próxima de Ariane e manteve um laço genuíno com Bourdain mesmo após a separação. Tornou-se praticante séria de jiu-jitsu brasileiro — chegou a competir a nível semi-profissional — e construiu uma vida própria, longe dos holofotes do ex-marido. Bourdain apoiava-a abertamente: partilhava vídeos das competições dela nas redes sociais com o entusiasmo de um adepto convicto.
É o modelo de separação que muitos casais reconhecerão como o ideal quase impossível de alcançar: dois adultos que colocam o bem-estar da filha acima de qualquer mágoa residual. Não é fácil. Eles, aparentemente, conseguiram.
Quando Bourdain morreu, em junho de 2018, Ottavia foi das primeiras a prestar homenagem publicamente. A dor que transparecia não era performática. Isso conta a história melhor do que qualquer entrevista longa.
Asia Argento: a última relação
Não se pode falar das mulheres da vida de Bourdain sem mencionar Asia Argento, actriz e realizadora italiana com quem se relacionou nos seus últimos anos. A relação era intensa, pública e assumidamente complicada — ele próprio descreveu-a como a primeira vez em que se sentiu verdadeiramente exposto emocionalmente, sem armadura de qualquer tipo.
Asia Argento foi uma das figuras centrais do movimento #MeToo em Itália e nos Estados Unidos. A relação com Bourdain foi alvo de intenso escrutínio mediático, sobretudo depois da morte dele. Não é o tema principal deste artigo, mas é impossível ignorar que ela fez parte dos últimos capítulos de uma vida que terminou demasiado cedo.
O que estas histórias dizem sobre o amor?
As relações de Bourdain são um retrato honesto de como o amor raramente segue o guião que imaginamos. Nancy esteve nos piores anos e saiu antes da glória chegar. Ottavia partilhou os melhores e soube transformar o fim em algo funcional. Asia viveu a versão mais exposta e turbulenta. Nenhuma destas histórias é simples, nenhuma delas serve para tirar lições fáceis.
eu adoro trair meu marido
Bourdain era fascinante precisamente porque nunca fingia ter respostas. Sobre comida, sobre viagens, sobre amor. Estava sempre a meio do processo, como toda a gente. Só que o seu processo estava documentado em câmara e nas páginas de livros escritos com uma honestidade que ainda hoje desconforta um pouco — no bom sentido da palavra.
Ariane: o legado mais pessoal
Se há uma continuidade clara na vida de Anthony Bourdain, ela chama-se Ariane. A filha que teve com Ottavia tornou-se, segundo todos os que lhe eram próximos, a sua maior razão de viver. Nascida em 2007, tinha apenas 11 anos quando o pai morreu.
Ottavia tem protegido a privacidade de Ariane com uma dedicação que merece respeito. A adolescência da filha decorre longe das câmaras — uma escolha sábia, dado o peso do legado paterno.
Bourdain deixou uma fundação em seu nome, livros que continuam a ser lidos em todo o mundo incluindo em Portugal, e séries televisivas que ainda passam em canais de dezenas de países. Mas o legado mais pessoal, o mais irreplicável, vive numa jovem que cresceu sem o pai e que, com o tempo, terá a sua própria versão desta história para contar. As mulheres da vida de Anthony Bourdain não são personagens secundárias. São pessoas com vidas próprias, que fizeram escolhas difíceis, que amaram alguém simultaneamente extraordinário e impossível de amar com tranquilidade. Isso é o amor, muitas vezes. Belo e exasperante, ao mesmo tempo.
